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Leitura em F: as 2 primeiras palavras de cada subtítulo

O padrão que o Nielsen Norman Group flagrou com rastreador ocular, a palavra-chave na margem esquerda e o mapa de calor do Clarity.

Tela de notebook com um post de blog e manchas de calor alaranjadas formando a letra F na margem esquerda do texto

O olho desce pela margem esquerda do texto.

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O cooler do notebook zune baixo, e a tela esquenta a ponta dos dedos no apoio do teclado. No navegador, um post de blog aparece coberto de manchas alaranjadas. Elas se juntam no alto da página, descem pela margem esquerda e quase somem à direita.

A mancha desenha uma letra. Duas barras horizontais no topo, a de cima mais comprida, e uma haste vertical que escorrega pela beirada do texto. Quem lê na tela não percorre a linha inteira: lê o começo, pula, lê o começo da seguinte.

Quem escreve blog costuma imaginar o visitante de outro jeito. A imagem na cabeça do autor é a de alguém sentado, lendo cada frase na ordem em que foi escrita. Na prática, o visitante chegou pela busca com uma pergunta e caça a resposta com pressa.

Então ele faz uma triagem. Passa o olho pelos subtítulos, pelos itens de lista, pelo início dos parágrafos. Se a palavra que responde à pergunta dele está ali, ele para e lê. Se está na ponta direita da linha, escondida depois de um “neste tópico vamos ver”, o olho passa reto.

O ponto fraco está na ordem das palavras dentro da linha, e quase ninguém revisa a ordem. O autor confere a ortografia, o tamanho do texto, a imagem de capa. Raramente pergunta qual palavra abre cada subtítulo.

A correção é pequena e cabe numa revisão de meia hora. Cada subtítulo e cada item de lista passa a começar pela palavra que carrega a informação. O conectivo, o artigo e a introdução educada vão para depois, ou saem.

Dá para conferir se a troca funcionou sem depender de achismo. Uma ferramenta gratuita da Microsoft desenha esse mesmo tipo de mancha sobre o seu post, com os cliques reais dos seus visitantes, e o desenho muda quando a margem esquerda muda.

A seguir: quem descobriu o desenho e o que ele recomenda, a reescrita dos subtítulos e listas no seu post e o número do mapa de calor que mostra o resultado.

Continue lendo ↓

I  A técnica de hoje

O olho que lê pela beirada

A técnica: a leitura em F, padrão de varredura descrito pelo Nielsen Norman Group, consultoria americana de usabilidade (a facilidade de uso de sites e aplicativos). A regra prática que sai dela é pôr a palavra que importa no começo de cada linha que o olho varre.

Em 2006, Jakob Nielsen, cofundador da consultoria, publicou o artigo “F-Shaped Pattern For Reading Web Content” (padrão em forma de F para ler conteúdo na web). O texto resumia um estudo com 232 pessoas acompanhadas por eyetracking (rastreamento ocular, uma câmera que registra para onde a pupila aponta).

Os participantes leram milhares de páginas. Somadas, as fixações do olhar formaram a mesma figura: uma faixa horizontal no topo, uma segunda faixa mais curta logo abaixo e uma coluna vertical na margem esquerda.

O QUE O F MOSTRA

A primeira barra do F é a leitura de verdade, feita no alto da página, quando o visitante ainda dá crédito ao texto. A segunda barra é mais curta, porque a paciência já caiu. A haste vertical é a triagem: o olho desce rente à margem e lê só as primeiras palavras de cada linha.

Em 2009, Nielsen mediu o tamanho dessa janela no artigo “First 2 Words: A Signal for the Scanning Eye” (as 2 primeiras palavras: um sinal para o olho que varre). Na triagem, o leitor decide se a linha merece atenção olhando cerca de 2 palavras, às vezes só a primeira.

O PADRÃO RESISTIU AO CELULAR

Em 2017, a pesquisadora Kara Pernice, do mesmo grupo, publicou uma revisão com estudos novos de rastreamento ocular, inclusive em telas de celular. O F continuou aparecendo, agora numa coluna estreita, onde a margem esquerda fica ainda mais perto do polegar.

O texto de 2017 trouxe uma ressalva que muda a leitura do achado. O F surge quando a página não oferece pista de onde está a resposta. Quando subtítulos e itens começam por palavras com informação, o olho troca a varredura cega por saltos direcionados.

A leitura em F descreve o leitor diante de um texto que não ajudou. Cada subtítulo que abre pela palavra certa tira o visitante da varredura cega.

A PALAVRA DE INFORMAÇÃO

O Nielsen Norman Group chama de palavra de informação aquela que carrega o assunto: o substantivo, o número, a marca da ferramenta. “Como”, “dicas”, “entenda” e “confira” ocupam o começo da linha sem dizer nada ao olho que passa.

Compare dois subtítulos com o mesmo conteúdo. “Entenda por que vale a pena usar o Pix na sua loja” abre por três palavras vazias. “Pix na loja: taxa zero para o cliente” entrega o assunto nas 2 primeiras.

Kara Pernice resumiu a orientação no texto de 2017: “Comece subtítulos, parágrafos e itens de lista com as palavras que carregam a informação.” A técnica cabe inteira nessa frase.

 
 

II  No seu blog

A palavra-chave vai para a esquerda

O passo: reescrever cada subtítulo e cada item de lista do post para que as 2 primeiras palavras digam o assunto. Escolha um post com bastante visita vinda da busca e pelo menos quatro subtítulos.

O teste do olho é simples. Cubra com a mão tudo que vem depois da segunda palavra de cada subtítulo. Leia só o que sobrou, de cima a baixo, como faria um visitante apressado. Se a sequência não conta o post, a margem esquerda está desperdiçada.

ANTES DE MEXER

Copie todos os subtítulos e itens de lista para uma folha à parte, na ordem em que aparecem. Ao lado de cada linha, escreva as 2 primeiras palavras dela. A coluna da direita é o que o leitor apressado enxerga.

Marque as linhas que abrem por palavra vazia: “como”, “por que”, “dicas de”, “o que é”, “confira”, “entenda”, “vamos”, artigos soltos e números de passo sem assunto.

OS QUATRO PASSOS

1.  Em cada linha marcada, ache o substantivo que diz o assunto. Em “Dicas para escolher a hospedagem certa”, a palavra é “hospedagem”.

2.  Leve esse substantivo para o começo da linha e reorganize o resto: “Hospedagem: como escolher a certa para o blog”. Dois-pontos ajudam a separar o assunto da explicação.

3.  Faça o mesmo nos itens de lista. “Você deve sempre fazer backup antes de atualizar o tema” vira “Backup antes de atualizar o tema, sempre”.

4.  Releia só as 2 primeiras palavras de cada linha nova, de cima a baixo. Agora a sequência precisa contar o post, sem a sua ajuda.

UM EXEMPLO DE TROCA

Post sobre adubação de horta, quatro subtítulos originais: “Por que a adubação é importante”, “Os melhores tipos de adubo”, “Quando você deve adubar” e “Erros que você precisa evitar”.

Depois da troca: “Adubação: o que ela devolve ao solo”, “Adubo orgânico ou químico: a diferença”, “Calendário de adubação por estação” e “Excesso de adubo queima a raiz”. Na coluna da esquerda, o assunto aparece em todas as linhas.

O CUIDADO DA TROCA

A palavra de informação no começo deve soar natural, sem cara de lista de palavras-chave colada. Subtítulo que vira “Adubo orgânico horta melhor adubo” espanta o leitor e não ajuda a busca. A frase continua sendo frase.

Também vale guardar variedade. Se todos os subtítulos abrem pela mesma palavra, “Adubo”, a margem esquerda volta a ficar igual e o olho perde a pista. Cada linha precisa abrir por um assunto diferente.

 

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III  O número pra olhar

O mapa de calor do Clarity

O número pra olhar é a fatia de cliques que cai nos links de sumário e de lista do post, medida no mapa de calor do Microsoft Clarity antes e depois da troca. O Clarity é gratuito e mostra onde os visitantes clicam, desenhado em cores sobre a própria página.

Para instalar, crie a conta no site do Clarity, cadastre o endereço do blog e cole o código de rastreamento no cabeçalho. No WordPress, o plugin oficial do Clarity faz a colagem sem mexer no tema.

ONDE ACHAR O NÚMERO

No painel, abra a aba Heatmaps (mapas de calor), digite o endereço do post e escolha a visão de cliques. Cada área clicada ganha uma cor, do azul frio ao vermelho quente, e a lista lateral mostra quantos cliques cada elemento recebeu e a porcentagem do total.

Some a porcentagem dos cliques que caíram nos links do sumário e nos links dentro dos itens de lista. O resultado é a parcela do público que usou a margem esquerda para navegar no seu post.

ANTES E DEPOIS

Anote o número com a data, troque os subtítulos e itens como no passo II, e espere 30 dias com o post no ar. Depois, filtre o mapa de calor pelo período novo e some de novo os mesmos elementos.

Abra também a visão de rolagem, que pinta até onde cada fatia de visitantes desceu. Ela confirma se os cliques novos vêm de gente que chegou mais fundo no texto ou só da parte de cima.

COMO LER O RESULTADO

Fatia de cliques maior nos links do sumário e das listas: a margem esquerda passou a orientar o visitante. Ele achou a resposta pelo começo da linha e pulou direto para ela.

Fatia parada: confira o volume de sessões. Abaixo de algumas centenas de visitas no período, o desenho oscila ao acaso e não sustenta conclusão. Espere mais um mês antes de julgar.

Fatia menor: releia as 2 primeiras palavras. Talvez a troca tenha deixado os subtítulos com cara de etiqueta repetida, e o olho deixou de diferenciar uma linha da outra.

“Quais são as 2 primeiras palavras do primeiro subtítulo do seu post mais lido?”

232 pessoas. Foi quantas o Nielsen Norman Group acompanhou com rastreador ocular no estudo que desenhou a leitura em F (Jakob Nielsen, 2006).

 
 
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No artigo de 2009 "First 2 Words: A Signal for the Scanning Eye", Jakob Nielsen mediu quantas palavras o leitor avalia antes de decidir se a linha merece atenção?

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